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"Shahnameh: O Épico dos Reis Persas" adaptado para a atualidade

O Shahnameh ("Livro dos Reis"), escrito há cerca de 1000 anos atrás pelo poeta Ferdowsi é considerado um épico dos persas e permanece até hoje como uma inegável obra-prima da literatura mundial. Mas quantas pessoas hoje em dia tem conhecimento deste livro ou chegaram a lê-lo? O documentarista e artista gráfico iraniano Hamid Rahmanian, pensando nessa questão resolveu adaptar este clássico em um magnífico livro ilustrado. Veja alguns trechos de uma entrevista com Rahmanian explicado a importância de seu trabalho e o que ele revela sobre o Irã de hoje:

Qual é o significado deste livro ser lançado em um momento tão crucial da história do Irã?

O que as pessoas aqui no ocidente sabem sobre o Irã é principalmente sobre política. Muito poucas pessoas sabem algo além disso sobre o país. Este livro oferece uma visão mais sofisticada sobre a contribuição do Irã para a civilização e  traz uma visão mais abrangente sobre sua cultura, arte e história.

O que este livro acrescenta para nosso conhecimento sobre a história e cultura do Irã?

Em termos de ilustração, eu tomei como referência mais de 500 anos de cultura visual do Irã e seus vizinhos, o Império Otomano, Ásia Central e Índia Mogol que foram influenciados pela pintura iraniana do final do séc. XIV a metade do séc. XIX. Eu desconstruí centenas de miniaturas e litografias, depois as juntei em milhares de elementos em novas ilustrações, assim como um DJ junta diferentes sons para criar uma música nova. Para aqueles que não conhecem a obra, é uma introdução à arte da região. Para aqueles que já conhecem é algo totalmente novo partindo do familiar.

Este livro traz ao leitor algum conhecimento sobre a cultura do Irã atual ?

O Shahnameh sempre foi parte da sociedade iraniana. Até mesmo os políticos da oposição usam histórias do Shahnameh para ganhar popularidade. Através do texto há uma busca pela justiça, que ressoa fortemente com as lutas do cenário político atual. 

Esta versão do Shahnameh pode ser  uma boa janela para quem não é muito conhecedor da cultura iraniana?

Com certeza. Os leitores se recordarão de outras mitologias do mundo.O texto tem uma qualidade universal com a qual todos podem se relacionar. As histórias de mil anos atrás são fascinantes. Há desde histórias de amor, tragédias clássicas a heróis hercúleos como Rostam que conduz o leitor a jornadas perigosas. É um texto clássico, mas também é a espinha-dorsal da cultura persa e uma maravilhosa introdução para quem não conhece essa região. É uma leitura divertida e agradável e as mais de 500 imagens conduzem o leitor através do livro como um filme.  

Há alguma relação entre as belíssimas ilustrações deste livro com a arte de contar histórias na cultura iraniana?

As histórias do Shahnameh foram ilustradas antes mesmo que Ferdowsi as terminasse de escrever no séc. X. Da nobre arte da iluminura e miniatura até  as populares pinturas nas casas de chá, os artistas usaram estas histórias como inspiração por centenas de anos. Os reis patrocinavam edições ilustradas para presentar outros chefes de estado e  telas grosseiramente pintadas eram usadas como pano de fundo pelos contadores das vilas para o público local. Por alguma razão, esta longa tradição cessou há cerca de 150 anos atrás. Nosso novo Shahnameh  pode ser uma possível restauração desta prática.


Há algum paralelo entre estas histórias antigas e as tragédias e triunfos do Irã atual?

Sim. Na historia de "Kaveh, o Ferreiro", este humilde artesão levantou um exército contra o tirano rei serpente, Zahhak. Muitas pessoas hoje em dia, usam esta história como um paralelo para o que está acontecendo hoje com o atual regime opressor.

Qual é o lugar do  Shahnameh original na literatura iraniana e na literatura mundial? 

O Shahnameh é muito importante. Ele é responsável por manter viva a língua persa após a invasão dos árabes no séc. VII. Embora tenha 1000 anos de idade, ainda pode ser lido pelas pessoas de hoje. A maioria dos iranianos conhecem as principais histórias e sabem recitar alguns de seus versos. Ele ainda é muito vivo e relevante no coração e na mente do povo. 

O quanto este livro é fiel ao texto e história originais? Qual é a diferença entre seu texto e o original?

Para traduzir o texto, nós trabalhamos com o Prof. Ahmad Sadri, que interpretou as histórias. Tivemos a visão de criar uma história de caráter cinematográfico que alguém sem nenhum conhecimento do Shahnameh poderia ler e entender facilmente. Um dos maiores desafios foi equilibrar a necessidade permanecer fiel ao texto original com a necessidade de fazê-lo interessante para o público moderno. Escolhemos os dois primeiros terços do Shahnameh porque este tem uma narrativa forte que o público pode acompanhar facilmente. Condensamos as histórias e fizemos elas andar mais rápido, editando aquelas que poderiam ser muito longas para um leitor do séc. XXI sem mudar a narrativa de Ferdowsi. 

Por que você decidiu fazer este projeto? 

Como um artista gráfico iraniano, eu sempre amei as ilustrações do Shahnameh - as miniaturas, pinturas e litografias. Eu queria fazer algo com elas há muito tempo mas eu nunca tive meio exato. Quando eu comecei a pensar sobre fazer alguma coisa com o Shahnameh, eu realmente tive a certeza que esta era a minha chance de explorar a paixão que eu tinha por essas imagens. O porquê de eu ter decidido usar o Shahnameh, foi por querer tirá-lo das mãos dos acadêmicos e apresentá-lo para o grande público. Há um grande interesse pela mitologia aqui no Ocidente, se você for para qualquer livraria, irá encontrar livros sobre todas as mitologias da terra, mas por alguma razão, a mitologia persa parece inacessível e não é representada no panteão das mitologias do mundo. Também, muitos jovens irano-americanos sabem alguma coisa sobre o Shahnameh mas poucos deles o leram. Nós achamos que esta poderia ser uma grande introdução para esta geração de iranianos que cresceram na América, uma forma de conectá-los as suas origens. 

Você acha que este livro tem potencial para se tornar um filme?

Com certeza. Com tantos  filmes e programas de  TV como Game of Thrones e O Senhor dos Anéis, o Shahnameh poderia definitivamente se encaixar neste nicho. Há muitas histórias que poderiam ser boas para este gênero. Mas se eu for mais longe, acho que eu poderia revelar meu próximo passo, então vou deixar para lá.  

(Adaptado da entrevista de Omid Memarian para o site The Huffington Post)

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Um comentário

  1. Quanto mais eu leio esse blog, mais eu gosto dele! Parabéns, Janaina Elias! Sou uma admiradora fiel deste trabalho!

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